Vulcões

Kilauea vai explodir de novo: os cientistas já sabem quando o Episódio 46 vai acontecer

Existe um vulcão no mundo onde os cientistas conseguem prever a próxima erupção com dias de antecedência. Não é ficção científica. É o Kilauea, no Havaí, e neste exato momento o USGS está monitorando o comportamento da cratera e já divulgou a janela oficial para o próximo evento: o Episódio 46 deve ocorrer entre o dia três e o dia sete de maio de dois mil e vinte e seis. Isso é algo que merece atenção, porque estamos falando de um fenômeno geológico ativo, documentado e previsível que está acontecendo agora mesmo enquanto você lê este texto.

O Kilauea entrou em um ciclo eruptivo episódico em vinte e três de dezembro de dois mil e vinte e quatro. Desde então, o vulcão já produziu quarenta e cinco episódios de jatos de lava a partir de dois focos ativos dentro da cratera de Halemaʻumaʻu, no topo da caldeira de Kaluapele. O padrão é sempre o mesmo: um episódio de jatos intensos que normalmente dura menos de doze horas, seguido por um período de pausa que pode se estender por semanas, durante o qual a pressão interna volta a se acumular até o próximo evento. O que torna esse vulcão cientificamente fascinante é exatamente essa previsibilidade: os instrumentos de inclinação instalados no cume — os chamados tiltmeters — detectam a inflação progressiva do solo, e quando o ângulo de inclinação atinge determinados limiares, os cientistas do Observatório Vulcânico do Havaí conseguem estimar com razoável precisão quando o próximo episódio vai acontecer.

O Episódio 45 ocorreu em vinte e três de abril de dois mil e vinte e seis. Começou às uma hora e trinta e quatro minutos da madrugada, horário local, e durou oito horas e meia. O jato de lava principal partiu do foco norte e atingiu a altura máxima de duzentos e setenta metros acima da superfície da cratera, o que equivale a um edifício de quase noventa andares surgindo do chão em forma de rocha líquida incandescente. Os ventos do norte e nordeste direcionaram os gases e a cinza para o sudoeste, e pequenas partículas foram detectadas em comunidades situadas na direção do vento. Após o fim do episódio, o USGS rebaixou o nível de alerta de WATCH para ADVISORY e o código de cor da aviação de LARANJA para AMARELO. Mas o rebaixamento não significa fim de atividade — significa apenas que a fase intensa cessou e o vulcão entrou no intervalo esperado antes do próximo ciclo.

O que os instrumentos estão registrando neste momento é um retorno acelerado da inflação. Em menos de seis dias após o Episódio 45, o tiltmeter Uēkahuna já havia registrado nove microrradianos de inclinação inflacionária, o que indica que a câmara magmática está se recarregando em ritmo compatível com os episódios anteriores. Noventa e seis pequenos terremotos foram registrados nas últimas vinte e quatro horas monitoradas, todos com magnitude inferior a dois, concentrados dentro da cratera Halemaʻumaʻu e ao sul e sudoeste da caldeira. A câmera de monitoramento mostra brilho constante nos dois focos, com chamas ocasionais causadas pela ignição de gases vulcânicos escaping através dos dutos. A taxa de emissão de dióxido de enxofre durante a pausa está variando entre mil e cinco mil toneladas por dia, o que é normal para o intervalo entre episódios mas ainda representa uma quantidade significativa de gases que se transformam em névoa vulcânica — o chamado vog — nas comunidades vizinhas.

O Kilauea não é apenas um vulcão em erupção. Ele é um laboratório geológico em tempo real que está ensinando à ciência como funcionam os sistemas magmáticos episódicos. Cada ciclo de inflação e deflação que acontece no Havaí gera dados que ajudam os pesquisadores a entender melhor outros vulcões ao redor do mundo — incluindo aqueles que não são previsíveis. A abertura de uma nova fissura durante o Episódio 30, em agosto de dois mil e vinte e cinco, precedida por terremotos rasos minutos antes do evento, mostrou que mesmo em sistemas bem monitorados existem comportamentos inesperados. O Episódio 38, em dezembro de dois mil e vinte e cinco, gerou uma mudança súbita na geometria do foco eruptivo que direcionou o jato para o sul de forma abrupta. São essas variáveis que mantêm os cientistas em alerta constante, mesmo durante os períodos de pausa.

O que podemos esperar para o Episódio 46? Com base nos padrões documentados desde dezembro de dois mil e vinte e quatro, os episódios costumam ser precedidos por pequenos transbordamentos de lava a partir dos focos principais, geralmente horas antes do início do jato principal. Quando isso acontecer, o USGS emitirá um alerta elevando novamente o nível para WATCH e o código de cor da aviação para LARANJA ou VERMELHO. O parque nacional Hawai’i Volcanoes National Park pode fechar áreas específicas para observação dependendo da direção dos ventos e do acúmulo de tefra nas trilhas e estradas. As comunidades a sudoeste do cume devem se preparar para possível queda de partículas finas e aumento da concentração de vog no ar. Não existe risco de fluxos de lava atingindo áreas habitadas fora do parque neste ciclo, já que toda a atividade eruptiva tem permanecido confinada dentro dos limites da cratera Halemaʻumaʻu.

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